quarta-feira, 8 de julho de 2020

Brasil pós-covid terá 2 mil bancos, diz investidor de Gympass e Loft


via Exame

O empreendedor Mario Mello é um observador privilegiado da revolução por que passa o mercado financeiro brasileiro. A pandemia do novo coronavírus acelerou a digitalização dos pagamentos, as compras online e os bancos e carteiras digitais, e levou a uma série de debates sobre o futuro deste mercado. Há analistas e investidores prevendo uma leva de concentração após a pandemia. Mello vai no caminho oposto: "o Brasil terá 2.000 bancos e instituições financeiras, é melhor se acostumar".

O que faz dele um privilegiado é o fato de que a gestora da qual é venture partner, a Valor Capital Group, tem 500 milhões de dólares para investir em fintechs brasileiras, de fundos captados antes do início da pandemia. Com o dólar a 5,30 reais, é uma fortuna que lhe permite escrutinar o mercado brasileiro para escolher onde, como e em quem investir. Entre as empresas no portfólio da Valor estão a Loft, de imóveis, a Descomplica, de educação, e a Gympass, de saúde.

Mello tem um extensa carreira no mercado financeiro, com passagens por Bank Boston, Visa, Banco Real, Safra e, por oito anos, na liderança da plataforma de pagamentos PayPal no Brasil e na América Latina. Há três anos, o executivo começou a sentir a necessidade de, como diz, "fazer algo pelo país". "Leaders must act to bring hope", como costuma resumir (líderes tem que agir para trazer esperança).

Mello divide sua rotina entre uma empresa social que fundou para aproximar os brasileiros do congresso, o Poder do Voto, além de conselhos de empresas e da avaliação de investimentos. Sua tese é que o Brasil vive um momento único, com ganho de escala trazido pela nuvem, um Banco Central aberto a novas licenças para fintechs e uma oferta única de talentos.

É uma combinação que reforça sua tese de que o país terá 2 mil bancos nos próximos 3 a 5 anos. "Teremos, e temos, várias soluções financeiras para MEIs, para caminhoneiros, para médicos em Ribeirão Preto. Custa muito pouco testar, e muita gente está testando, e vai continuar testando, já que conhece sua base de clientes", diz. Mello busca sobretudo empresas que atuem com SAS, o sofware como serviço. "Durante a pandemia já temos na mesa três negócios com potencial de assinar".

"Quando entrei na PayPayl, a empresa tinha 4 concorrentes. Quando saí, já eram 150 subadiquirentes no Brasil. De lá pra cá, deve ter duplicado. Tem empresas que morrem, mas outras que seguem nascendo. Daí minha previsão de que teremos duas mil financeiras no país", afirma. "Claro que todo mundo diz que quer ser Stone ou XP, mas que pode vir a dar certo com negócio pequeno, super nichado e rentável."

O investidor tem uma comparação inusitada para fundamentar sua tese: com o mercado cervejeiro dos Estados Unidos (e, mais recentemente, também do Brasil). "Os Estados Unidos tinham seis marcas de cerveja com 60% do mercado. Agora, existem por lá 3, 5 mil artesanais que já roubaram 20% do share das grandes. Agora há muita mudança de nomes e marcas, mas o volume de artesanais estabilizou. O que aconteceu por lá? O digital derrubou o custo de marketing. E permitiu a qualquer um virar mestre cervejeiro online. As grandes empresas haviam aberto mão da distribuição, então as pequenas puderam se plugar. Aqui, no mercado financeiro, a nuvem, o Banco Central e a oferta de talentos formam uma combinação parecida", afirma Mello.

Na tese de investimentos da Valor está a preocupação em equilibrar 3 Ps: planet, profit e people (planeta, lucro e pessoas). "Temos grande responsabilidade. Mas sem a visão de crescimento, não há equilíbrio. O Brasil precisa de empreendedores que gerem emprego. E sempre digo que, se você faz a coisa com ética, está no caminho certo", diz.

Neste contexto, o Poder do Voto, para ele, é uma "ferramenta de pós-venda", em que o eleitor pode ser acompanhando seu parlamentar nas votações. "Eu uso a tecnologia para tirar as pessoas da bolha. Vale para o Poder do Voto, vale para os investimentos", afirma.  Os próximos anos de Mello serão divididos entre milhões: mais de 100 milhões de eleitores, de um lado, e 500 milhões de dólares de outro. No centro, um Brasil pelo qual ele quer "fazer algo".

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