quinta-feira, 26 de julho de 2018

Desemprego: quando a fila não anda

Desemprego: quando a fila não anda
via CSB

O Brasil tem 13,2 milhões de desempregados, mas há lugares mais em crise do que outros. O estado do Rio de Janeiro, por exemplo, concentra cerca de 10% desse total, ou seja, mais de 1 milhão de pessoas sem emprego.

Enquanto a taxa de desemprego no país foi de 12,7% no trimestre entre março e maio, chegou a 15% no estado fluminense nos primeiros três meses do ano. É a maior proporção da região Sudeste.

Quando esse número se une aos de subempregados e aos de força de trabalho potencial (que procuram emprego ou não, mas que, por alguma razão, não trabalham), é o que se chama de subutilização da força de trabalho: são 24,7% no Brasil sob esta condição, ou 27,7 milhões de pessoas. No Rio, os subocupados totalizam 1,6 milhão de trabalhadores.

A alguns meses das eleições presidenciais, quando esse problema será tema das propostas dos candidatos, o UOL ouviu dos cariocas as angústias de estar sem ocupação em um país em crise.

Eles tentam dar o famoso jeitinho brasileiro para fazer algum dinheiro. Alguns se rebaixam de posto, outros desistem de sonhos. Afinal, há contas a pagar.

O Rio de Janeiro é o estado em que a subutilização da força de trabalho mais cresceu nos últimos quatro anos: 123,7%  – segundo IBGE.

Doutora em genética forense vende biscoitos

Era um outro momento do Brasil quando a biomédica Lais Baptista, 28, deixou o Rio de Janeiro, em 2013, para fazer um doutorado por intermédio do programa Ciência sem Fronteiras na University of Central Lancashire, no Reino Unido.

“No ano em que eu entrei no doutorado, a pesquisa no Brasil estava no seu melhor momento nas últimas décadas, muitos artigos publicados, várias oportunidades. Foi nessa realidade que eu fui [viajar]”, conta.

Quando voltou ao Brasil, no final do ano passado, tudo havia mudado.

“A troca para o governo Temer trouxe mudanças na política [para a produção científica]. Foi muito abrupto e os investimentos em pesquisa andam cada vez menores. Fui afetada. Quero seguir na pesquisa acadêmica, mas não há oportunidade”, diz a biomédica.

Segundo os dados disponíveis no site da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), vinculada ao Ministério da Educação e que coordena a distribuição de bolsas para mestrado, doutorado e outras, houve uma redução de 16% nas bolsas concedidas para pesquisa. Foram de 96.110 em 2013 para 80.613 neste ano.

Em fevereiro, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações anunciou um corte de 11% nas bolsas (de R$ 4,5 bilhões para cerca de R$ 4 bilhões).

O investimento em pesquisa já havia sofrido uma redução de 25% em relação ao ano anterior, de acordo com a proposta orçamentária para 2018.

Os cortes financeiros na ciência têm gerado o que se chama de “fuga de cérebros”, ou seja, o êxodo de profissionais altamente qualificados do país para outros lugares do mundo.

Desde que concluiu o doutorado em genética forense, no começo deste ano, a pesquisadora reduziu gastos em lazer e cultura, mas diz que a ajuda dos pais não deixa a situação piorar. Ela também faz biscoitos amanteigados para pagar as contas.

“É uma forma de me ocupar. Sempre gostei de ‘bakery’ [panificação], é um hobby. Aí tive a ideia de vender para tirar um dinheiro extra”, afirma.

Para as próximas eleições, ela diz que prestará atenção nos candidatos que se comprometam a revogar a PEC do Teto, que congelou os gastos em saúde e educação.

“Aquilo ali está praticamente matando a pesquisa científica brasileira nos próximos 20 anos –e sabe-se lá quantos anos vai demorar para se recuperar esse tempo perdido”, opina.

“Sei que não se dá muita bola para a ciência em eleições, mas a pesquisa científica é um investimento a longo prazo para o país. No caso das ciências exatas, podemos criar tecnologias, trazer patentes.”

Também está preocupada com uma proposta menos genérica para o alto contingente de desempregados. “Chamaria a minha atenção um candidato que tivesse um plano de ação, menos aberto do que simplesmente ‘vamos diminuir o desemprego’, mas com ações concretas e realistas.”

Apesar da crise e da falta de oportunidade, Lais faz planos: conta que está tentando uma bolsa de pesquisa de pós-doutorado junto a um laboratório fluminense. Se não conseguir, vai tentar novamente em março do ano que vem.

“O Ciência sem Fronteiras exige a contrapartida de que se fique no país o período do doutorado, ou seja, quatro anos. É justo. Mas, caso não dê certo, vou pagar parte da dívida dos meus estudos de doutorado e vou embora do Brasil. Meu maior receio é perder habilidades pela falta de contato com a pesquisa”, diz.

Dicionário do desemprego, segundo o IBGE

- Subutilização da força de trabalho
É o número somado de desempregados, dos que trabalham menos do que gostariam e da força de trabalho potencial (pessoas em busca de trabalho ou não, mas que, por alguma razão, não estavam disponíveis para trabalhar no momento do trabalho de medição da equipe da pesquisa)

- Subemprego
Também conhecido como “subutilização”, o conceito engloba jornadas de trabalho inferiores a 40 horas semanais. No entanto, pessoas nessa faixa gostariam de trabalhar mais e teriam disponibilidade para isso. Aceitam bicos ou “free-lances”, geralmente sem carteira assinada

- Desocupado/desempregado
É a população que está sem trabalho no momento de referência da pesquisa, mas que está na procura ativa por uma nova posição (consultando jornais ou vendo anúncios na internet ou conversando com outras pessoas etc.)

- Desalento
Pessoas nesta condição desistiram de procurar trabalho por diversos motivos, como não ter experiência, ser muito jovem ou ter idade avançada, não ser chamado para entrevistas ou por não haver vagas em determinada localidade.

No “bico”: “Estou em busca de qualquer coisa”

Fazer faxinas, cuidar de crianças e trabalhar em eventos têm sido alguns dos bicos que compõem a rotina da recém-formada em publicidade Priscilla Borges, 25.

Desempregada desde setembro de 2017, quando encerrou o período de estágio no Senac do Rio de Janeiro, a jovem publicitária não encontra emprego na sua área. Sua aposta, então, se voltou a “qualquer coisa que aparecer”.

“Estou mandando currículo para lojas, serviço administrativo… É melhor procurar algo na minha área enquanto estiver em outro tipo de trabalho, ganhando alguma coisa”, diz. “É muito difícil depender de novo da minha mãe. Tem dias em que não tenho dinheiro nem para o ônibus. Trabalho desde os 17 anos e nunca vivi um momento como esse.”

Priscilla engrossa as estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgadas em maio, e faz parte dos 24,7% dos trabalhadores subutilizados do país no primeiro trimestre de 2018.

Embora o estado com maior taxa nesse quesito seja a Bahia –com 40,5% da força de trabalho nessa condição–, o Rio de Janeiro, onde mora a publicitária, é a unidade federativa em que a chamada subutilização cresceu 123,7% nos últimos quatro anos.

Trata-se do maior porcentual no Brasil e corresponde a um universo de 1,6 milhão de pessoas. O IBGE forma esse grupo com pessoas que gostariam de trabalhar mais, que procuravam ou não (mas não estavam disponíveis para trabalhar) e os desempregados.

“Tenho observado e percebido que não sou só eu. Não concordo com as políticas do governo Temer desde o seu início, já imaginava que situações como essa estavam por vir. Mas, atualmente, tenho evitado pensar em política. Só estou tentando manter minha saúde mental, não deixo nada roubar minha paz interior.”

Não foi sempre assim. No final do ano passado, ela teve uma crise de depressão e de ansiedade. Conseguiu se recuperar com ajuda de terapia e de remédios.

Hoje sonha com uma pós-graduação ou uma outra faculdade para mudar de área. Por enquanto, para relaxar, toma sol e faz aulas de ioga no Arpoador. De graça, ou o dinheiro não daria.

“Vou à praia, levo um livro, mergulho no mar. Ocupo a minha cabeça como dá. Senão a gente pira como eu já pirei. Hoje, converso e aconselho os amigos na mesma situação. Até que isso tudo passe.”.

3 milhões de pessoas estão desempregadas há mais de dois anos. Esse número corresponde a 22% do total de desempregados do país no primeiro trimestre de 2018 , mostra IBGE.

“Tomo remédios para aguentar"

Há mais de um ano desempregado, o economista Julio Morais, 41, saiu do funcionalismo público para apostar na iniciativa privada. Em 2015, por problemas de gestão na empresa, perdeu o emprego. Conseguiu outra vaga em em abril de 2016, onde ficou até outubro do mesmo ano.

Desde então, está em busca de trabalho. “A primeira dificuldade que constato são poucas vagas e, para cada uma delas, são 400, 700 currículos enviados”, lamenta. “Em 2018 formalizei minha pessoa jurídica, fiquei por volta de dois meses cuidando das áreas financeira e contábil de algumas empresas.”

O economista é uma das vítimas da crise econômica que assola o Rio de Janeiro: o estado fechou 92.192 vagas com carteira assinada em 2017, o pior resultado do país, segundo dados do Caged (Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho. Em três anos acumulados, o Rio perdeu mais de 513 mil postos de trabalho.

Ele atribui a falta de emprego ao cenário político. “Está instável. A Bolsa [de Valores] está despencando absurdamente, os investidores externos que trazem grande quantidade de capital para o Brasil estão receosos com a conjuntura política que estamos vivendo”, analisa.

“Todos estão afetados pela incerteza e isso acaba tendo um peso muito grande para os tomadores de decisão, os empresários e investidores.” Julio diz que espera transparência dos candidatos nas eleições. “Os políticos precisam mostrar que não vão trabalhar em causa própria, e sim do coletivo.” Casado, mas sem filhos, ele conta que consegue se manter porque poupou nos tempos em que esteve empregado. “Consegui juntar dinheiro a partir da Bolsa de Valores e de renda fixa. Isso me salvou. Ainda sustento minha mãe, que é cardíaca, tem 70 anos e vive de salário mínimo. É mais complicado numa situação dessas”, relata. Enquanto não encontra emprego, Julio está fazendo MBA, estudando inglês por meio de aplicativos e se prepara para ingressar em um mestrado no final do ano. Mas a angústia e a tensão do desemprego só foi superada à base de antidepressivos.

“Tomo remédios para aguentar e para dormir. Só com remédios eu consegui vencer a ansiedade e a depressão.”

“Não há vagas”

Desde 2015, a estudante de assistência social Ana Cristina Gomes da Silva, 26, faz parte dos 3 milhões de desempregados que buscam trabalho há dois anos ou mais.

“Minha busca mais intensa foi logo depois que saí do meu antigo trabalho. Entre 2015 e 2016, fiz diversas entrevistas para trabalhar em lojas ou na área administrativa”, conta.

“Até em furada entrei, mas sem vínculo empregatício. Comecei a trabalhar numa loja de suvenires e fui dispensada em uma semana. O que eu percebi é que eles estavam tentando cobrir um buraco no atendimento.

Ganhava R$ 30 fixo por dia vendendo, sem comissão. Pegavam as pessoas que queriam trabalhar, prometiam mundos e fundos e colocavam para trabalhar apenas quando eles queriam a cobertura.”

Desde então, o que ela percebeu foi uma redução brutal na oferta de vagas no Rio. “Antes dessa crise, tenho a impressão de que havia por volta de 40% a mais de ofertas de vagas.” Em 2016, quando entrou na faculdade, Ana seguiu na busca de um estágio na área que estava cursando. Ainda assim, não obteve resultados. “Simplesmente não há vagas”, resume ela, resignada.

“Quando abrem, é uma ou duas, com concorrência altíssima.”  Moradora da Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio, cogitou um estágio por intermédio da faculdade. O problema é que essas vagas, em geral, não pagam salário.

“As vagas de faculdade são estágios não remunerados que ocupam uma boa parte do dia. Isso dificulta muito na questão financeira”, afirma. Por enquanto, a jovem vem se dedicando aos estudos –embora não tenha deixado a busca de lado. Antes de escolher seu candidato, vai pesquisar propostas para “estancar a avalanche contra a classe trabalhadora, contra essa constante revogação dos direitos”.

“Já vejo o empregador se aproveitando desses cortes na carteira de trabalho para ter uma mão de obra mais barata, para não ter que pagar direito, para não ter responsabilidade nenhuma sobre uma doença que o funcionário venha a ter, uma gravidez ou qualquer outro tipo de responsabilidade.”

“O trabalhador se vê acuado porque as contas não param de chegar, a vida não para de acontecer, não param de acontecer eventos que demandam dinheiro e as pessoas se sentem acuadas. Tem que haver um respaldo [político] para o trabalhador”, diz.

Ana conta que só não desistiu por ter o apoio financeiro da mãe. “Tem outras pessoas, com famílias e filhos, que não sabem como se sustentar. Minha situação não é das piores”, avalia. “Mas chega um momento em que a gente vai para entrevista desmotivado, já achando que não vai conseguir a vaga, achando que não vai conseguir a entrevista. Fiz uma no mês passado e estou aguardando a resposta. Vamos ver.” Não há vagas, mas, pelo jeito, há esperança.

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