domingo, 25 de outubro de 2015

Flávio Tavares: 'A crise de hoje teve origem em 64, é a crise da simulação'

via Sindpd

Flávio Tavares é autor dos livros Memórias do esquecimento, O dia em que Getúlio matou Allende, 1964 - O golpe, Meus 13 dias com Che Guevara e 1961 - O golpe derrotado.

O jornalista e militante da esquerda durante o regime militar Flávio Tavares foi contundente ao afirmar que a conjuntura atual brasileira, de colapso político, é ressonância da ditadura militar. A origem da crise política brasileira foi tema central em sua palestra no Seminário de Pauta. Ávido na luta pela redemocratização do Brasil, Tavares - que foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado durante os anos de chumbo - destacou que uma das estratégias para a implantação do regime foi retirar das instâncias de poder as figuras combativas. "Para manter a legalidade do horror, o parlamento continuou, as Câmaras Legislativas continuaram, mas os melhores foram expulsos. (...) Eu quero chamar a atenção para o que isto gerou. Acho que a crise de hoje é mais uma crise dos políticos do que uma crise na política. A crise de hoje teve origem em 64, é a crise da simulação", analisou.

Segundo afirma, o Brasil vive hoje uma espécie de AIDS, uma Síndrome da Imunodeficiência Adquirida no poder, resultado da grande simulação deixada pela ditadura. "Temos uma engrenagem política, um simulacro de partidos políticos. A simulação é a mentira profunda. É a mentira que se disfarça de ser verdadeira, de ser aquilo que as pessoas desejariam que fosse a verdade", ressalta. Para ele, à época da ditadura, o Congresso se enfraqueceu e deu lugar a uma máquina burocrática. "O Congresso, que não tinha condição alguma, se tornou pequeno. (...) Não tinha função nenhuma na ditadura, mas precisava de mais espaço para manter a democracia do simulacro", enfatizou.

O jornalista aponta a regulamentação do Ato Institucional 5 - considerado o mais duro atentado contra a democracia, estabelecido em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva - como umas das vias para que a opinião pública, e os Estados Unidos, desenhassem um cenário deturpado sobre o que estava acontecendo no País.  "O AI5 acabou com tudo. [surge] Nova ocupação das sedes dos sindicatos, novamente o horror de corpo inteiro. O terror se desnuda, passou-se a censurar até a previsão do tempo", disse. Para ele, embora se tenha enraizada a ideia de que a imprensa foi levada a colaborar com o regime, há certa conivência dos meios de comunicação para que se mantenha o cenário de dissimulação da verdade. "Acho que ninguém é obrigado, as pessoas são levadas a fazer, mas não são obrigadas a fazer. Quem não queira praticar o crime se nega a praticá-lo. A imprensa foi conivente, neste dia eu decidi passar de corpo e alma para a resistência", rememorou.

O legado de Getúlio Vargas

Para Flávio Tavares, além das contribuições sociais e econômicas do governo de Getúlio Vargas para o desenvolvimento nacional, outro importante mérito do presidente foi sua heróica interferência no despertar crítico do povo brasileiro. "Tudo tem um nascedouro. Acompanhei desde estudante a evolução da política. Um mês antes do suicídio de Getúlio eu estive com ele no Palácio do Catete. O suicídio de Vargas foi uma bofetada na sociedade brasileira, a fez despertar da letargia, a fez se reconhecer através do sangue do seu líder máximo", declarou. De acordo com o jornalista, é preciso justamente recobrar a consciência política para que o País possa se distanciar da crise. Para ele, há, fatalmente, um sério colapso de representação que afeta, por consequência, a participação social na realidade política. "Das Câmaras de Vereadores até o Congresso Nacional, o grande caudal é de gente desinteressada da política e de gente interessada em si. Esta loucura partidária brasileira não representa nada, a redemocratização se faz às sombras da ditadura", condenou.

Um exame objetivo da crise

Para Flávio Tavares faz-se emergente um exame objetivo da crise, de modo a conter aquilo que chama de simulacro. Em seu argumento, ele afirma que as fraudes, enquanto mentiras plantadas, contribuem para o desvio da real compreensão da crise. "O legado da ditadura esta aí hoje, tudo é estatística, todos sobrevivem do passado, e isto sintetiza a visão economista do passado", apontou em referência ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em novembro de 1961, e dirigido por Golbery do Couto e Silva, um dos mentores da ditadura militar. O jornalista faz uma crítica contundente sobre as implicações sociais de estimular a cada dia uma sociedade de consumo em detrimento de uma que participe criticamente das decisões políticas. "A sociedade de consumo hoje nos assoberbou escandalosamente, criou consumidores. O convívio com meus semelhantes eu não tenho mais. Estão pensando em consumismo, mas a finalidade da vida não é consumo, é convivência, é solidariedade. (...) Isto mudou nossa visão de mundo, mudou nossa consciência e fez com que aceitemos o que acontece hoje, porque o que a sociedade de consumo quer é isto, as ilusões", encerrou.

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