sábado, 24 de outubro de 2015

Clóvis de Barros Filho: 'Ética e Vergonha na Cara'

via Sindpd

Para lançar à plateia uma reflexão sobre os princípios e condutas que leva o ser humano a se posicionar sobre os maiores dilemas existenciais da vida, tomou a palavra o professor, doutor em comunicação pela USP, mestre em ciência política pela Universidade Paris III Sorbonne-Nouvelle e filósofo, Clóvis de Barros Filho. "Ética e Vergonha na Cara" foi o tema de sua palestra no Seminário de Pauta. Considerado um dos principais pensadores da modernidade, Clóvis lançou uma constatação: "muitas vezes a vida que decidimos viver é dependente de situações que não controlamos". De acordo com o filósofo, "escolhas" é a palavra-chave que nos impele a "identificar a alternativa de maior valor" em qualquer circunstância imposta pela vida, mesmo nos acontecimentos cotidianos.

"Se tenho escolhido desde que nasci, é sinal que tenho atribuído valor desde que nasci. Se há um bolo de chocolate e outro de qualquer sabor, alguns optarão por um e outros pelo que sobrou. Algum tipo de valor atribuíram", exemplificou o professor. Para o também escritor, "não há vida sem escolha, e não há escolha sem valor", e a angústia, proporcionada por essa liberdade, é algo que sempre acompanhará as tomadas de decisões. Seja no ambiente de trabalho, educacional ou familiar, Clóvis reitera que "cada segundo da vida é um nó e, assim, haverá o medo de arriscar, de se arrepender". Porém, de acordo com o publicado no livro escrito a quatro mãos, junto ao também filósofo Mario Sergio Cortella, que leva o mesmo nome da palestra - "Ética e Vergonha na Cara" -, o certo e o errado podem ser decididos por meio de um fundamento democrático: "passa a ser o resultado da vitória do melhor argumento numa ética de diálogo, de discussão, de embate".

Tendo como base o teórico Rousseau, o professor explica na obra que o homem transcende a sua natureza, tem capacidade de inventar, criar, improvisar, inovar, empreender e pensar em soluções "nunca antes pensadas para situações nunca antes vividas". Porém, segundo o livre-docente, é justamente essa responsabilidade diária que nos faz culpar o sistema pelo diversos problemas enfrentados pela humanidade, como a corrupção. "Ética é a necessidade de encontrar caminhos quando o instinto não responde mais; a necessidade de perceber que vontade não é desejo, porque vontade, muito mais do que uma inclinação do corpo, é uma decisão racional, elaborada e criativa sobre para onde queremos ir [...] mas o indivíduo prefere uma solução pronta à outra que ele mesmo tenha que buscar. Existe uma tentativa permanente de protocolos prontos da existência", afirma Clóvis.

Apesar do sentimento de angústia provocado pelos variados cenários de realidade, durante o Seminário, o professor deu a lição de casa sobre como cada um pode problematizar seus dilemas e encontrar saídas menos penosas e compatíveis com a conduta ética. "Entender o que é mais importante de se fazer na vida" é um dos caminhos em direção a soluções democráticas. O professor reforça que, para isso, é necessário um novo modelo de escola, que também dê ênfase e espaço a aulas de cidadania para mudar a cultura do foco no resultado enraizado em nossa sociedade. De acordo com o exposto pelo doutor em comunicação, "toda vez que o foco está em alguma coisa, fica descaracterizada a ideia de complexidade, diversidade, pluralidade. Se houver um conflito entre honestidade e resultado, então, a resposta está no banner: o foco é no resultado [...], mesmo que isso implique mentir", esclarece.

Segundo Clóvis de Barros Filhos, "excelência, amor, alegria ou fidelidade - [decidir com base nessas quatro filosofias] - prometem a mesma coisa: uma convivência mais feliz". "Felicidade é aquele instante da vida que você gostaria que acontecesse de novo. A meta das metas é proporcionar a alguém um mísero segundo de felicidade. [Com isso], todos nós patrocinaríamos a nós e a nossos filhos uma sociedade muito melhor, mais honesta, mais limpa, mais viva", concluiu, e completou: "Diziam que o céu é o limite, mas o homem já furou o céu faz tempo. Para o homem, não há limite".

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